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Amanhece e tudo se perde

22/08/2014

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Muitas, muitas fotos deste amanhecer no Acupe de Brotas, pouco mais das cinco da manhã deste 22 de agosto de 2014 se perderam. Ficaram uma ou duas num álbum publicado no facebook. Também se perderam muitas fotos do dia a dia da casa, de uns passeios com a renca, das crianças comendo licuri no quintal da casa de Iaçu, de muitas cenas do cotidiano, da calopsita Lupi, que já se foi também.

Todas as imagens se apagaram por uma distração. Ao receber a sugestão de reinstalar o sistema no celular de um sujeito num estande no shopping para resolver um problema de não registro dos últimos telefonemas, esqueci completamente que com isso iriam embora também  as fotos. Nem os contatos telefônicos ficaram, embora o tal sujeito tenha dito que não os perderia.

Estou puto, mais chateado ainda porque não foram poucas as vezes em que posterguei acionar o salvamento automático em outro ambiente, gesto que me tomaria uns cinco minutos. Ainda postergo.

Só restou tomar o acidente como exercício de desapego, como ensinamento. Assim como as fotos, a vida também irá embora daqui a pouco, como as nuvens que já são agora mais claras, como eu e você , como a lua minguante da parte de cima da foto, como o dia já perto das seis, hora de acordar as crianças para a escola, .

Daqui a pouco é muito ou pouco tempo? quem vai saber?

Um santo pra chamar de meu

24/09/2013

Moro no segundo andar de um prédio sem elevador. Como bom obsessivo já contei das mais variadas maneiras os degraus desde a garagem até a porta de casa. São 16 x 3. Ou 32+16. Ou 16+8+8+8+8 e por aí vai até quase o infinito. Outro dia resolvi contar os degraus com o tempo. Resultou neste texto:

“Presente, diz ao tocar o pé direito no batente da escada. Passado, diz  ao levantar o pé esquerdo. Antes de alcançar o próximo degrau, diz  futuro. Ao tocar novamente o batente seguinte, diz presente.

E sobe cantarolando, devagar quase parando: presente, passado-futuro, presente, passado-futuro, presente.  No presente o pé está sempre no chão. Chega finalmente à porta, ofegante e satisfeito. Pela primeira vez se convence da supremacia  do aqui e agora.”

Luísa me avisa que viu algo semelhante numa apostila da escola, nas palavras de… Santo Agostinho.

Hoje ela me apresentou o texto e leu no carro enquanto eu fazia meu trabalho de motorista. Senti um alegria semelhante à de um torcedor quase bêbado ao gritar gol ou BBMP! quando ouvi traduzido o que senti nas palavras de um sujeito que por aqui passou há quase 1.600 anos:

“O que agora claramente transparece é que nem há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”

foto: http://bit.ly/qKUAoG

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200572322687293&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Filete

23/09/2013

Com ímpeto de recomeços, desfolhei agenda 2013 empoeirada e sem uso.
Ficou preso ao espiral apenas um filete de dias.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200564296286638

Vaga memória

02/06/2013

montagem

Era uma vez um cemitério, uma  igreja, uma escola, fontes luminosas, cinemas, sobrados.
Não quero bancar o nostálgico, acho bonito o atual Jardim das Borboletas de árvores e palmeiras crescidas, mostrado pelo google maps. Mas nele colo minha fonte da infância, numa montagem grotesca, só para perguntar.
Custava o quê preservar a fonte, o parque infantil, a biblioteca?

m título

52 anos, muito para um velho e gordo corpo, nada para um cemitério.
Em outros lugares, cemitérios guardam séculos, milênios. Mas na cidade onde nasci desapareceu em 1949 e  virou hoje  ponto de chaveiros.
A casa onde vivi, o cinema das minhas tardes de domingo, 
a escola onde estudei, deles quase  nada foi guardado, afora imagens, quando há. 

SobradoBanco

Era uma vez este sobrado e no quintal ao lado dele havia galinhas d’angola, eu me  lembro.
Este sobrado nasceu em 1906 e morreu em 1973, aos 67 anos, uma criança no mundo dos sobrados.
Minha Vitória da Conquista, a cidade de nome redundante, é assim. Não gosta de pedra sobre pedra. 

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E não sobrou pedra do Colégio Barão de Macaúbas, onde frequentei catecismo e não entendia e até hoje tento entender por que Deus não pode ser visível, diante do desenho da invisibilidade de Deus feito pelo catequista.
Ali havia pés de manga e campos de futebol. Hoje há uma caixa com ar condicionado no lugar das amplas janelas.

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Era uma vez um Cine Glória, ô Glória.  Ali assisti a um show de Fagner e a duas, talvez três,  sessões contínuas de Amor Estranho Amor, com Xuxa.
Ao lado do cinema era uma vez um elefante no jardim.
E era uma vez, na casa ao lado do cinema, um elefante e anões de jardim, habitantes da memória de quem circulou com olhos de criança pela Rua Francisco Santos até outro dia e logo adiante passava por debaixo da marquise em curva da Tebasa.
Era uma vez Tebasa e sua marquise.

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Era uma vez um Colégio Batista Conquistense, escola de Bau, primo, de Fernando Eleodoro,  professor. E até meu, quando já fechado  abrigou o Complexo Escolar Polivalente de Vitória da Conquista.
Custava preservar as janelas agora cegas?

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Era uma vez outro cinema, foi Conquista, foi  Riviera mas virou point de eletrodomésticos em prestação.

Sem título

Era uma vez uma infância, uma cidade  com suas fachadas e seu passado hoje quase totalmente  escondidos sob placas.
Valei-me Santa Verônica, padroeira dos fotógrafos e por extensão da nossa vaga memória.
Porque a  única salvação está nas imagens.
Amém.

Fotos publicadas na página  https://www.facebook.com/pages/Fotos-antigas-de-Vit%C3%B3ria-da-Conquista/276638065774881

1 – Fonte Luminosa: http://bit.ly/13dTqHl
Jardim hoje: http://bit.ly/11Kh682

2- Sobrado: http://bit.ly/OhBFTC
Banco do Brasil: http://goo.gl/maps/P8nsu

3-  Cemitério: http://bit.ly/15toqTY
Chaveiros: http://bit.ly/1aMvKLG

4 – Colégio Barão de Macaúbas: http://bit.ly/12oAZD6
Forum: http://bit.ly/12VN1Pm

5 – Cine Glória:http://bit.ly/10EeBTm
Igreja Universal: http://bit.ly/19sJ61J

6 – Colégio Batista: http://bit.ly/12oB2Ps
Prédio hoje:  http://bit.ly/18ET9lA

7 – Cine Riviera: http://bit.ly/11g8O6f
Insinuante: http://bit.ly/Zyf0b9

8 –  Praça 9 de novembro: http://bit.ly/11xtHWa
Praça hoje: http://goo.gl/maps/t6oyz

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4904824615206&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Carpe diem

26/04/2013

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Outro dia o céu é azul e mais três árvores compõem o cenário. Hoje o mesmo lugar mostra o giro do tempo.

Outro dia, neste coco pequeno Maria Sampaio e Márcia Rodrigues comentam.

Hoje nem céu azul, nem árvores, nem Maria e nem Márcia.

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Gosto também deste céu com nuvens, deste vento, deste falso frio, destes dias.

Ao descer até a areia da praia hoje cedo, atraído pela mudança, pelo sumiço das árvores,  encontro um velho conhecido, um combatente com arma em punho até hoje, mas já  sem os pés.

Outro dia em Jequié, ao passear minha infância na casa da madrinha e tia Alzira, Tio João, Auta, Fazinho, Stelinha e Ivanesa compro na venda da rua um destes combatentes acompanhados de doce para compor meu pequeno exército. Brinco muito com eles.

Naquela casa em Jequié está Fazinho e Auta. Hoje não estão mais aqui.

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Recolho o soldado de plástico sem pés e trago pra casa, dou de presente a André, conto a ele o significado  deste soldado pra mim nas minhas batalhas  de criança.

soldado

Presente e passado até hoje me confundem. Melhor Carpe diem.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4737486271852&set=a.4737281586735.1073741827.1135737937&type=1

O presente de André

31/10/2011

Acordo hoje de madrugada  atropelado pelo tempo. Na minha cabeça o mundo roda como aquelas bolas cheias de pontas destes jogos de televisão. Você tem que se livrar de uma ponta, dar um salto, se livrar da outra que já vem chegando, dar outro salto. O mundo o os prazos rodam na minha cabeça como estas bolas do  programa de televisão.

Perco quase todos os prazos e fico com a impressão de que o presente é muito curto, o presente não dá pro gasto, tudo é passado não resolvido e o futuro uma bola cheia de pontas do programa de televisão. Que derrubam.

Chego à conclusão de  que o presente não existe, mas meus conhecimentos de psicologia de botequim me dizem que é da natureza dos neuróticos não reconhecer o presente. Vivem angustiados com o passado ou sobressaltados com o futuro. Fudeu.

Acordo Soraya e faço a pergunta: quanto tempo dura o presente? ela me dá uma resposta convincente, mas que não me convence.

Mais tarde, no caminho da Escola de André, já atrasado, lanço a pergunta pro menino. Menino que fez 10 anos no dia 31 de outubro. Perdi o tempo de postar seu aniversário neste coco abandonado. Posto agora, dou uma banana pro tempo e faço de conta que hoje é 31 de outubro, que hoje é sábado passado, dia em que ele ficou bem feliz ao ganhar seu cordão amarelo

Pronto, faço destes dois momentos presentes. Agora.

E ganho de André a resposta, na lata, sem pensar muito. Resposta igual à de Soraya, só que resumida em uma só palavra.

O presente é…. infinito.

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/144985938942426

O início, o fim e o meio

09/09/2010

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Eis a foto de tudo, tempo e espaço. O início, o fim, o meio. Ao folhear a revista da Fapesp na banca da rodoviária me bati ontem com ela. Grudou no meu juízo.  Reúne imagens de um telescópio lançado ao espaço em maio de  2009 e que já está  a 1,5 milhão de quilômetros da  gente, ainda pertinho da terra,  no meio desta faixa fina de poeira cintilante, o nosso presente. O passado é mais escuro e se afasta pelas bordas.
A imagem é bonita demais e contém as perguntas infantis sem resposta que nos  ocorrem quando nos apresentam o universo:  depois do fim, vem o quê? E antes do início, tinha o quê?

Auta Maria

16/09/2008

 

O passar do tempo é também contar ausências nas fotos. Nesta acima, de exatos 25 anos, na porta da igreja do casamento de Stael e Marcelo, já são duas. No centro, de vestido azul,  está Auta Maria, que herdou o nome das nossas avó e  bisavó. A mesma Auta da segunda foto, parecida com a  minha Maria, de mão dada com meu tio e padrinho João, ao lado de minha irmã visitante Rita, num destes sertões onde eles moraram.

 

Na primeira foto Stael fala alguma coisa a ela, que se foi no final de 1993, 10 anos depois. Na extremidade direita  está Álvaro Vasconcelos, atrás de Josias, de braços cruzados. Alvinho também já não está entre nós. Era natureba radical e preferiu não enfrentar o tratamento de um câncer só descoberto já na metástase e se foi em menos de dois meses. Alvinho era uma figura, um dos mais sabidos da turma da Escola Técnica. Deixou duas filhinhas lindas.

 

Dizer que Auta se foi é amenizar uma tragédia. Ela estava numa fase de retomada da vida, feliz, em Porto Seguro, com um salão de beleza. Defendeu e deu guarida a uma funcionária que estava sendo assediada pelo padrasto e acabou morta com um tiro pelas costas, dentro de casa.

 

Lembrei de Auta ao desarrumar uma grande caixa em busca das fotos do casamento de Stael. Auta é filha de minha tia e madrinha Alzira. Quando criança, nossas famílias dividiram a mesma casa em Conquista antes deles irem para São Paulo e a gente para Castro Alves. Passei muitas férias na casa de tia Alzira em Jequié ou nos diversos sertões por onde eles andaram.

 

Auta foi velada na capela do Hospital onde nasci, o São Vicente. Ela tinha os olhos azuis do nosso avô. Lembro que saí pelas ruas próximas a buscar um tecido de tule para cobrir seu rosto.

O que passou, passou?

06/12/2007

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Tento fixar-me  no presente para fugir do pretérito a cada dia mais perfeito e do futuro incerto. Aí vem  Paulinho da Viola  e me dá um belo toque no domingo,  na estréia da TV Brasil, ao propor um antídoto antinostalgia: 

Eu costumo dizer que meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado, o passado vive em mim. 

Mas aí o sacana do Nilson Pedro, no blag,  cogita o tiro de misericórdia  nas minhas presentes pretensões:

O futuro some a cada segundo.
O presente é um trânsito.
Só o passado existe.