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Contágio lento

Tá sentindo alguma coisa voinho?
Velhice, minha filha.
E isso pega?
Demora um pouco, mas pega.

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Rubem, Joel, Edith, Gabriel.

Rubem Reis, aos 91, chora seu melhor amigo,  o compadre  Joel Barbosa. Sempre que toca no assunto passa a mão nos olhos. Resolvi não perguntar nada. Ofereci novo passeio ao Trapiá. Por uma destas coincidências intrigantes, Joel Barbosa passou para visitar o amigo justamente naquele dia do passeio ao Trapiá. Aquele seria o último encontro dos dois.

Desta vez seu Rubem  pediu para ir ao Faustino.

O Faustino é um dos  povoados de Iaçu, distante 4 léguas ou 14 km de asfalto mais 10 de estrada de chão. No caminho, comentou a seca, lamentou várias vezes a seca,  e soltou uma de suas tiradas. Ao ver dois carros  no sentido contrário comentou: a cidade tá vazia. Diante da interrogação minha e de Luísa, explicou: cabe todo mundo em dois carros.

Uma praça, uma igreja, um bar no centro, bandeirolas e fogueiras ainda quentes da noite de São João. Foi só perguntar por Laureano Rocha ao primeiro e bastou uma indicação com o dedo apontado para o outro lado da praça. Lá estava ele, sentado na porta de um mercadinho, vestido com uma camisa branca de mangas compridas, com o nome Varig bordado no  bolso. Contou muitas histórias. Vive só, numa grande casa ao lado da igreja, aos  84, embora tenha uma pretendente de 28. “Um homem só não vale nada” diz.

A conversa rendeu, seu Rubem ouviu mais do que falou, mas voltou satisfeito do passeio. Encontrara um dos poucos sobreviventes.

Sempre me intrigou a solidão dos sobreviventes de uma geração. Nilson Galvão tem um nome pra isso, pra quem já foi. Chama de a inocência dos mortos. Não podem mais interferir, são poupados das atualizações surpreendentes desta vida.

E o que sobra para os ainda vivos? lembrar. Quinta-feira desço para a roça, para a divisa da Bahia com Minas, onde minha mãe tem vivido feliz e enfurnada nos últimos tempos, talvez sonhando com lembranças. Ela também conta muitos mortos. Pai, mãe, irmãs, irmãos, amigos, meu pai.

Em 2007 provoquei o encontro entre os dois, entre Edith e Rubem. Ficaram esta foto e outras no Rio Paraguaçu como  lembrança. E sempre um perguntando pela saúde do outro.

Pensando sobre tudo isso, revivendo os vários junhos aqui neste coco pequeno caiu como uma luva no meu pensamento a  frase de Gabriel Garcia Marquez, relembrada por Ricardo Viel no seu post no Purgatório:  “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.”

Prefiro a frase no original. Não gosto dela traduzida na primeira pessoa. Acho bem bacana esta expressão uno, em espanhol. Uno é todo mundo, é qualquer um, é o nosso “neguinho”.

“La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla”

Neguinho que vive a solidão dos últimos dias sabe bem o que é isso.

 

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Panelinha

75 anos separam Edth de Maria nesta tarde. Nesta tarde as duas estavam quase sozinhas. Ao  me ver chegar em casa, no inicio desta noite, Maria corre de braços abertos, olhos vivos de cinco anos. E me abraça. Pede para adivinhar do que ela mais brincou nesta tarde.
– Boneca? – Não.
– Desenhou? – Não.
– Casinha? – Não, tá quase.
– Desisto.
– Panelinnnha!
Ao dizer panelinha a menina abre novamente os braços e espalma as mãos; desta vez com os cotovelos encostados ao corpo, tornando o gesto ainda mais vigoroso e feliz.

Maria brincou sozinha, o irmão em um aniversário, a irmã no computador. E ela brincou feliz a tarde inteira.

Minha mãe me enxerga desde a janela do terceiro andar quase no final desta tarde. Está de hóspede na casa de uma neta e também passou a tarde quase só. Não está deprimida, mas não sorri, não acha graça em quase nada. Brinca de panelinha apenas para fazer o seu almoço, mas isso não é divertido.

Sente dores nas costas, dá notícia dos filhos e de uma irmã que tomou duas quedas recentemente.

Serve um café generoso com banana da terra e pão. Insiste para eu tomar o leite até o final, comer todo o pão. Fiquei olhando minha mãe com os gestos lentos e o olhar triste de 80 anos. Não está deprimida. Também não está feliz. Não há abraço e nem beijos. Nenhum contato físico.

Saí de lá mais triste, debaixo de uma chuva fina, meio abestalhado e sem graça.

Maria ainda é um filhote. E os filhotes brincam. Minha mãe é uma anciã, já não vê graça em brincar, talvez não veja mais graça nesta vida.

Minha mãe me deixa triste e sem graça e sem entender muito o sentido das coisas e sem a menor vontade de envelhecer.