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Notícias da guerra

Sou frouxo para imagens de morte, doença, miséria. Minha leitura de jornais é seletiva, passo longe destas notícias. No rádio mudo de estação; na televisão, de canal. Na estrada olho pro outro lado quando avisto acidente, distraio as crianças. Aqui no facebook sempre assinalo a opção de não querer ver este tipo de imagem.
Tento escapar do que gruda no meu juízo. Mas aqui em casa temos uma repórter ativa, Alcione o nome dela. Já falei aqui de nossa diarista, aquela que não vê sentido no Réveillon, festa de rico, de ficar relembrando do que não deu certo no ano todo, ao contrário do São João, só alegria. Ganhou dos amigos do buzu manta e macacão para o filho ainda no barrigão. Faltou contar que ela também já levou bolo de aniversário para um dos seus motoristas, o de segunda e quarta.
Alcione chegou, pra variar, atrasada. Trouxe mais e más notícias da guerra. Foi buscar seu filho caçula, de 8 anos, na casa do pai, assustado porque presenciou mais um assassinato, num domingo, muitos tiros na cabeça da amiga. Pela manhã havia brincado de bola com ela, numa das avenidas de casas separadas por canais próximos ao Juliano Moreira. O menino está dormindo mal, todo dia sonha com a amiga.
8 anos, duas mortes na retina, nos ouvidos, nas narinas. Qual o tamanho do estrago que esta guerra vai nos devolver nos próximos anos? Como serão estes adultos com este tipo de memória?
O futuro não tá nada animador. Viva o presente. Como puder.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200392616954762&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

 

 

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Boas novas

site portuga

Sim, existe um site português dedicado exclusivamente a boas notícias:
Jovens devolvem 60 mil euros achados em comboio
Homem dá emprego a ladrão que lhe entrou em casa
Usar redes sociais no trabalho aumenta produtividade

Queria me mudar de Salvador e morar nestes últimos três dias neste site portuga. Porque por aqui as notícias são pancadas e nestes últimos três dias a pancada foi maior. Costumo me esquivar de tragédias, elas alteram meu humor, atrapalham meu trabalho, me consomem energia. E desde sexta só vejo más notícias embora o céu tenha sido sempre azul. Domingo, por exemplo, fomos à praia no final da tarde e Ipitanga parecia o paraíso. Mas desde sexta, abro os jornais e leio dor, dor de mãe, dor de pai, dor de famílias. Pra completar,  o resto do mundo também não ajuda. Contra minha vontade abro o vídeo e lá vejo corredores chegando numa linha de chegada, felizes, perto de cumprir o desafio e de repente uma bomba. Salvador e o mundo carecem de boas notícias. Vou para Portugal, pá.  

A Mercedes de Varela, a bravata e as pistolas

Outro dia entrei um pouco embalado naquela  curva da ACM, logo depois do Parque da Cidade, sentido Iguatemi. Mas mantive minha mão e não atrapalhei o traçado  da Mercedes prata que vinha da  Juracy Magalhães, na confluência das duas pistas.
Levei uma buzinada estridente e desnecessária.
Emparelhei então meu empoeirado Corsa azul com a Mercedes prata reluzente e girei o  dedo indicador em direção à minha nuca.
O vidro da Mercedes então desceu e ouvi o berro de Raimundo Varela, apresentador e espancador de bancadas,  enfurecido: 
– Doido é você, que entra assim igual a um maluco.
– Então é você? ri da situação, mas ele fechou a cara e o vidro, acelerou e seguiu em frente.

Lembrei desta história ao entrevistar  hoje um agente. Um sujeito boa prosa, simpático e bonachão, a quem você e seus preconceitos atribui qualquer profissão, menos a de policial.

Ele me contou que estava no trânsito, com a pistola ao alcance da mão e no  banco do  carona um colega de trabalho, também engatilhado. Colega famoso por matar sem muita piedade.

Num movimento involutário, o carro dos dois entrou no caminho de um outro motorista, que nem quis saber de conversa. Colou e ameaçou: 
 – Você merece um tiro na cara, seu otário.

Segundo ele a história terminou bem, reagiram com humor à bravata. Acreditei.

Mas os jornais estão cheios de episódios semelhantes aos dois acima com finais bem menos prosáicos.