Arquivo da tag: Vitória da Conquista

Não passe na minha calçada

Sem título

Cresci ouvindo comentários sobre a fama de brigões, valentes e matadores da família Gusmão de Conquista. Lembro vagamente de um parente de meu pai, vivia com um canivete a esculpir eternamente um pedaço de madeira. Nele eu concentrava todas as fantasias da fama da família. Nele eu imaginava todos os outros. Calmo, voz mansa, não combinava com mortes matadas.

Lembro também de uma visita a um primo  do meu pai no hospital, todo Gusmão é primo.  Havia levado tiros mas teve forças par subir na montaria, perseguir o atirador com um facão e fazer dele picadinho. Aquela figura frágil na cama do hospital São Geraldo,  imobilizado por um dreno,  também não combinava com tamanha valentia.

Nesta semana resolvi ler com atenção um documento, um registro da morte de um Gusmão.  E da vingança da morte. Tudo aconteceu por causa de uma desavença por terras e foi antecedida pelo aviso de que se o Gusmão passasse no passeio, seria morto.

No passeio desse sobrado na esquina da Rua Grande,  a principal da cidade desde a fundação. O centro desta praça agora se chama Jardim das Borboletas. Não tem mais araucárias, a igrejinha foi transformada em catedral. Não tem mais este sobrado de andar na esquina, morada então do suspeito da morte, depois vingado.

Publico aqui um detalhe da foto, belíssima, que pertence ao acervo do Museu Regional de Vitória da Conquista.  Veja com um duplo clique a foto completa e ampliada: http://fotosdevitoriadaconquista.files.wordpress.com/2013/07/30-rua-grande2.jpg

Volto aqui para falar mais desta história, mas se quiser  saber detalhes leia na página 28 do  artigo O bacharelismo na política conquistense dos anos 20, de Belarmino de Jesus Souza http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_I/belarmino_jesus_souza.pdf ; na página 104  do livro Além dos muros e das grades: discurso prisionais, de Heleusa Figueira Câmara http://bit.ly/1bYh3tW ; e E no blog de Luís Fernandes, Taberna da Historia do Sertão Baiano http://tabernadahistoriavc.com.br/firmino-gusmao/ .

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200249603979527&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Anúncios

A força da grana

Barão

Ao viajar por centenas de fotos do passado de Vitória da Conquista, contemplo o leite derramado e me ocorre uma pergunta. Como seria esta cidade caso seu crescimento respeitasse o passado, caso as novas construções buscassem outros espaços? Possivelmente nossa cidade teria se transformado num dos destinos turísticos mais interessantes do país.

O casario sertanejo, o frio, as pessoas, casas de cultura com a obra de Elomar, de Glauber,  bares, restaurantes, pousadas temáticas.

Outra pergunta. Por que cidades como Lençóis, para ficar num só exemplo, conservam sua cara, seu casario?

A resposta talvez esteja na grana.  Com o fim do dinheiro do diamante a cidade de Lençóis empobreceu completamente e como ninguém construía mais, também não destruíram.

No crescimento contínuo e desordenado, sem planejamento,  talvez esteja a explicação para  a destruição do passado sem dó nem piedade. Isso acontece também em Feira de Santana. As duas maiores cidades da Bahia ignoram a história e transformam seu passado arquitetônico em entulho. 

Um exemplo. Na década de 1970 Conquista recebeu incentivo para plantar café e a cidade sentiu o impacto da entrada do diheiro. E o efeito colateral  mais visível foi a demolição do antigo Hotel Conquista  para a construção de um caixote modernoso, nova sede do Banco do Brasil.

941713_379099158862104_890838361_n

Existem outras causas. Quais?

Foto 1: Rua Grande, hoje Praça Barão do Rio Branco.
http://www.blogdopaulonunes.com/v3/category/historia/page/6/
Local Hoje: http://bit.ly/ZPTleO

Foto2: http://on.fb.me/19KaNDi

Fui ali dar uma volta na infância, antes da infância, e voltei com medo de morrer

421178_379780902127263_1033427697_n

A morte deve ser como este detalhe borrado de uma foto antiga. A morte é não existir mais como o cenário desfeito desta foto antiga.
Eu me peguei com medo da morte nestes dias, incutido com o o passado, incutido com fotos do passado. E incutido é pior do que doido.

Mas doido é pior do que tudo. Pior até que a morte. Mas é outro assunto.

Voltando à vaca fria, resolvi ficar fora do facebook por 30 dias chateado com a censura à página da Dilma Bolada, ao bloqueio da página do Prefeito Netinho, duas das minhas preferidas. Ambas voltaram e eu fiquei com a  cara de tacho, auto- excluído da brincadeira.

Mentira minha.

Saí e não saí. Eu me refugiei na construção da  página de fotos antigas de Vitória da Conquista e de lá assistia a tudo, como naqueles filmes em que a pessoa morre e fica de fora acompanhando.

Pois bem. Na penúltima vez em que tentei sair do facebook só eu notei minha ausência. Como desta vez Kátia Borges notou e outras  pessoas se manifestaram, encontrei o motivo para voltar com a sofreguidão de amante que perdoa, de quem volta a fumar, a cheirar, a tomar coca-cola 600ml.

Voltei, portanto, de onde na verdade não tinha saído. E nestes dias sem me manifestar no perfil  foram muitos os posts imaginários.

Quanto a gente trabalha em jornal, tudo na rua é pauta. Quando a gente é viciado em facebook, tudo é post.

Vamos ao primeiro deles.

Luísa estuda para o vestibular estas  coisas inúteis de quem estuda para o vestibular. Mas da poltrona comenta comigo, envolvida com um assunto interessante misturado aos temas maçantes de vestibular.

Do ponto de vista da matéria, meu corpo e o seu tem a mesma idade, disse ela.

Pronto, deu um belo nó na minha cabeça. Não é maravilhoso isso, ter a mesma idade de filho, neto, pai e avô?

Portanto, temos todos a mesma idade desta foto de coisas que não existem mais mas estão por aí espalhadas com a mesma idade da gente.

Estas pessoas na rua da foto por onde passei muitas vezes, rua que já era outra, as lâmpadas destes postes, o calçamento hoje por debaixo do asfalto, as crianças no primeiro passo antes de atravessar a rua sem carros. Ruas sem carros. Repito pra você, rua sem carros. Tudo isso, ruas sem carro e engarrafamentos, tem a minha e a sua idade.

Temos todos a mesma idade da eternidade.
Mas continuo com medo da morte.

Foto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=379780902127263&set=a.379777018794318.1073741838.276638065774881&type=1&theater