Posts Tagged ‘Vitória da Conquista’

Não passe na minha calçada

27/07/2013

Sem título

Cresci ouvindo comentários sobre a fama de brigões, valentes e matadores da família Gusmão de Conquista. Lembro vagamente de um parente de meu pai, vivia com um canivete a esculpir eternamente um pedaço de madeira. Nele eu concentrava todas as fantasias da fama da família. Nele eu imaginava todos os outros. Calmo, voz mansa, não combinava com mortes matadas.

Lembro também de uma visita a um primo  do meu pai no hospital, todo Gusmão é primo.  Havia levado tiros mas teve forças par subir na montaria, perseguir o atirador com um facão e fazer dele picadinho. Aquela figura frágil na cama do hospital São Geraldo,  imobilizado por um dreno,  também não combinava com tamanha valentia.

Nesta semana resolvi ler com atenção um documento, um registro da morte de um Gusmão.  E da vingança da morte. Tudo aconteceu por causa de uma desavença por terras e foi antecedida pelo aviso de que se o Gusmão passasse no passeio, seria morto.

No passeio desse sobrado na esquina da Rua Grande,  a principal da cidade desde a fundação. O centro desta praça agora se chama Jardim das Borboletas. Não tem mais araucárias, a igrejinha foi transformada em catedral. Não tem mais este sobrado de andar na esquina, morada então do suspeito da morte, depois vingado.

Publico aqui um detalhe da foto, belíssima, que pertence ao acervo do Museu Regional de Vitória da Conquista.  Veja com um duplo clique a foto completa e ampliada: http://fotosdevitoriadaconquista.files.wordpress.com/2013/07/30-rua-grande2.jpg

Volto aqui para falar mais desta história, mas se quiser  saber detalhes leia na página 28 do  artigo O bacharelismo na política conquistense dos anos 20, de Belarmino de Jesus Souza http://www.uesb.br/anpuhba/artigos/anpuh_I/belarmino_jesus_souza.pdf ; na página 104  do livro Além dos muros e das grades: discurso prisionais, de Heleusa Figueira Câmara http://bit.ly/1bYh3tW ; e E no blog de Luís Fernandes, Taberna da Historia do Sertão Baiano http://tabernadahistoriavc.com.br/firmino-gusmao/ .

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200249603979527&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

A força da grana

05/06/2013

Barão

Ao viajar por centenas de fotos do passado de Vitória da Conquista, contemplo o leite derramado e me ocorre uma pergunta. Como seria esta cidade caso seu crescimento respeitasse o passado, caso as novas construções buscassem outros espaços? Possivelmente nossa cidade teria se transformado num dos destinos turísticos mais interessantes do país.

O casario sertanejo, o frio, as pessoas, casas de cultura com a obra de Elomar, de Glauber,  bares, restaurantes, pousadas temáticas.

Outra pergunta. Por que cidades como Lençóis, para ficar num só exemplo, conservam sua cara, seu casario?

A resposta talvez esteja na grana.  Com o fim do dinheiro do diamante a cidade de Lençóis empobreceu completamente e como ninguém construía mais, também não destruíram.

No crescimento contínuo e desordenado, sem planejamento,  talvez esteja a explicação para  a destruição do passado sem dó nem piedade. Isso acontece também em Feira de Santana. As duas maiores cidades da Bahia ignoram a história e transformam seu passado arquitetônico em entulho. 

Um exemplo. Na década de 70 Conquista recebeu incentivo para plantar café e a cidade sentiu o impacto da entrada do diheiro. E o efeito colateral  mais visível foi a demolição do antigo Hotel Conquista  para a construção de um caixote modernoso, nova sede do Banco do Brasil.

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Existem outras causas. Quais?

Foto 1: Rua Grande, hoje Praça Barão do Rio Branco.
http://www.blogdopaulonunes.com/v3/category/historia/page/6/
Local Hoje: http://bit.ly/ZPTleO

Foto2: http://on.fb.me/19KaNDi

Fui ali dar uma volta na infância, antes da infância, e voltei com medo de morrer

03/06/2013

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A morte deve ser como este detalhe borrado de uma foto antiga. A morte é não existir mais como o cenário desfeito desta foto antiga.
Eu me peguei com medo da morte nestes dias, incutido com o o passado, incutido com fotos do passado. E incutido é pior do que doido, lembrou bem Soraya,

Mas doido é pior do que tudo. Pior até que a morte. Mas é outro assunto.

Voltando à vaca fria, resolvi ficar fora do facebook por 30 dias chateado com a censura à página da Dilma Bolada, ao bloqueio da página do Prefeito Netinho, duas das minhas preferidas. Ambas voltaram e eu fiquei com a  cara de tacho, auto- excluído da brincadeira.

Mentira minha.

Saí e não saí. Eu me refugiei na construção da  página de fotos antigas de Vitória da Conquista e de lá assistia a tudo, como naqueles filmes em que a pessoa morre e fica de fora acompanhando, Ghost é o nome do filme.

Pois bem. Na penúltima vez em que tentei sair do facebook só eu notei minha ausência. Como desta vez Kátia Borges notou e outras  pessoas se manifestaram, encontrei o motivo para voltar com a sofreguidão de amante que perdoa, de quem volta a fumar, a cheirar, a tomar coca-cola 600ml.

Voltei, portanto, de onde na verdade não tinha saído. E nestes dias sem me manifestar no perfil  foram muitos os posts imaginários.

Quanto a gente trabalha em jornal, tudo na rua é pauta. Quando a gente é viciado em facebook, tudo é post.

Vamos ao primeiro deles.

Luísa estuda para o vestibular estas  coisas inúteis de quem estuda para o vestibular. Mas da poltrona comenta comigo, envolvida com um assunto interessante misturado aos temas maçantes de vestibular.

Do ponto de vista da matéria, meu corpo e o seu tem a mesma idade, disse ela.

Pronto, deu um belo nó na minha cabeça. Não é maravilhoso isso, ter a mesma idade de filho, neto, pai e avô?

Portanto, temos todos a mesma idade desta foto de coisas que não existem mais mas estão por aí espalhadas com a mesma idade da gente.

Estas pessoas na rua da foto por onde passei muitas vezes, rua que já era outra, as lâmpadas destes postes, o calçamento hoje por debaixo do asfalto, as crianças no primeiro passo antes de atravessar a rua sem carros. Ruas sem carros. Repito pra você, rua sem carros. Tudo isso, ruas sem carro e engarrafamentos, tem a minha e a sua idade.

Temos todos a mesma idade da eternidade.
Mas continuo com medo da morte.

Foto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=379780902127263&set=a.379777018794318.1073741838.276638065774881&type=1&theater

Vaga memória

02/06/2013

montagem

Era uma vez um cemitério, uma  igreja, uma escola, fontes luminosas, cinemas, sobrados.
Não quero bancar o nostálgico, acho bonito o atual Jardim das Borboletas de árvores e palmeiras crescidas, mostrado pelo google maps. Mas nele colo minha fonte da infância, numa montagem grotesca, só para perguntar.
Custava o quê preservar a fonte, o parque infantil, a biblioteca?

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52 anos, muito para um velho e gordo corpo, nada para um cemitério.
Em outros lugares, cemitérios guardam séculos, milênios. Mas na cidade onde nasci desapareceu em 1949 e  virou hoje  ponto de chaveiros.
A casa onde vivi, o cinema das minhas tardes de domingo, 
a escola onde estudei, deles quase  nada foi guardado, afora imagens, quando há. 

SobradoBanco

Era uma vez este sobrado e no quintal ao lado dele havia galinhas d’angola, eu me  lembro.
Este sobrado nasceu em 1906 e morreu em 1973, aos 67 anos, uma criança no mundo dos sobrados.
Minha Vitória da Conquista, a cidade de nome redundante, é assim. Não gosta de pedra sobre pedra. 

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E não sobrou pedra do Colégio Barão de Macaúbas, onde frequentei catecismo e não entendia e até hoje tento entender por que Deus não pode ser visível, diante do desenho da invisibilidade de Deus feito pelo catequista.
Ali havia pés de manga e campos de futebol. Hoje há uma caixa com ar condicionado no lugar das amplas janelas.

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Era uma vez um Cine Glória, ô Glória.  Ali assisti a um show de Fagner e a duas, talvez três,  sessões contínuas de Amor Estranho Amor, com Xuxa.
Ao lado do cinema era uma vez um elefante no jardim.
E era uma vez, na casa ao lado do cinema, um elefante e anões de jardim, habitantes da memória de quem circulou com olhos de criança pela Rua Francisco Santos até outro dia e logo adiante passava por debaixo da marquise em curva da Tebasa.
Era uma vez Tebasa e sua marquise.

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Era uma vez um Colégio Batista Conquistense, escola de Bau, primo, de Fernando Eleodoro,  professor. E até meu, quando já fechado  abrigou o Complexo Escolar Polivalente de Vitória da Conquista.
Custava preservar as janelas agora cegas?

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Era uma vez outro cinema, foi Conquista, foi  Riviera mas virou point de eletrodomésticos em prestação.

Sem título

Era uma vez uma infância, uma cidade  com suas fachadas e seu passado hoje quase totalmente  escondidos sob placas.
Valei-me Santa Verônica, padroeira dos fotógrafos e por extensão da nossa vaga memória.
Porque a  única salvação está nas imagens.
Amém.

Fotos publicadas na página  https://www.facebook.com/pages/Fotos-antigas-de-Vit%C3%B3ria-da-Conquista/276638065774881

1 – Fonte Luminosa: http://bit.ly/13dTqHl
Jardim hoje: http://bit.ly/11Kh682

2- Sobrado: http://bit.ly/OhBFTC
Banco do Brasil: http://goo.gl/maps/P8nsu

3-  Cemitério: http://bit.ly/15toqTY
Chaveiros: http://bit.ly/1aMvKLG

4 – Colégio Barão de Macaúbas: http://bit.ly/12oAZD6
Forum: http://bit.ly/12VN1Pm

5 – Cine Glória:http://bit.ly/10EeBTm
Igreja Universal: http://bit.ly/19sJ61J

6 – Colégio Batista: http://bit.ly/12oB2Ps
Prédio hoje:  http://bit.ly/18ET9lA

7 – Cine Riviera: http://bit.ly/11g8O6f
Insinuante: http://bit.ly/Zyf0b9

8 –  Praça 9 de novembro: http://bit.ly/11xtHWa
Praça hoje: http://goo.gl/maps/t6oyz

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4904824615206&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Uma foto, um filme, uma música e menos ignorância

31/05/2013

O cangaceiro

Primeiro, a foto. Pesquiso na internet fotos antigas de Vitória da Conquista. Especialmente lugares especiais, lugares por onde passei. Lugares hoje inexistentes como este cinema na Praça Barão do Rio Branco.

Esbarro na foto do Cine Riviera, destino de alguns domingos do final dos dos meus anos 1960. Em cartaz, o filme O Cangaceiro.

E o filme está disponível na internet.

Na altura dos 25 minutos e 30 segundos do filme, soa a música. Conheço esta música, gosto desta música, especialmente a imagem “travesseiro do meu braço”. Conhecia até aqui apenas com Milton Nascimento. Mas ao ver o filme a ignorância deu lugar à informação. E aguçou minha sensibilidade. Dizem que sensibilidade é informação concentrada. Concordo.

Fico menos ignorante e mais sensível à musica. Busco a música em outras versões. Encontro esta aqui, também nova pra mim.

E, finalmente, a versão conhecida, com Milton Nascimento

Toda foto é antiga

31/05/2013

conquista

O que é uma foto antiga?
Uma imagem que contém algo que não existe mais? Então toda foto é antiga. Talvez por isso fascinem.
Todas, até aquelas tiradas há alguns segundos, são memória. Todas são algo que não existe mais ou permanece de outra maneira.
Ao googlar centenas de imagens mais antigas da cidade de Vitória da Conquista escolho as que mais me tocam e reúno aqui. A maioria não tem data, cada uma fala por si. Encaro o desafio de fazer esta datação ao comparar umas com as outras, buscar mais informações nos sites onde estão publicadas.
Neste mosaico, tento separar por episódios que marcaram a vida da vila e da cidade. A demolição da primeira igreja matriz e a construção da atual, a mudança da feira da Rua Grande para a Lauro de Freitas e Praça da Bandeira, a construção do quarteirão central na Rua Grande, a inauguração da Rio-Bahia, a construção do mercadão e por aí vai.

Outras informações subentendidas nas imagens são as rotinas daquele momento, feito presente em nossas mãos. E no presente, sugerem  perguntas.
De onde vêm de que maneira chegam às casas a água, a comida, as roupas, a iluminação? Quais são as festas, como nascem as pessoas, de que morrem, o que comem? Tropeiros, vaqueiros, lavradores, empregados, comerciantes, coronéis, funcionários públicos, professores. O que fazem nesta tarde estampada numa foto?

Se quiser viajar também, o caminho inicial é esse:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.3623062331950.2135461.1135737937&type=1

Laudicéia. Mãe do pai do pai.

28/04/2013

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https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4744668451402&set=a.4742485596832.1073741828.1135737937&type=1&theater

A Peleja dos templos e a peleja do tempo

07/09/2012

Primeira matriz. Foto: autor desconhecido http://bit.ly/SFzrPN

Conquista nasceu católica. Mas a partir de 1900 a rivalidade entre  católicos e protestantes resultou na construção de dois grandes templos cristãos, um de frente pro outro, no inicio e no final da Rua Grande, o núcleo urbano original da cidade. A rivalidade resultou no então maior templo batista da América do Sul. E os dois me impressionavam na minha infância. Alguém já disse que o ponto mais alto de uma cidade representa o poder da época. Torre da igreja na idade média, chaminé na revolução industrial e conglomerados financeiros no final do século XX.
A Conquista da minha infância era medieval na década de 1960. E eu me admirava com as torres das igrejas.

Esta primeira igrejinha, demolida em 1930, foi resultado, reza a lenda,  de uma promessa paga depois do massacre dos índios pelos conquistadores. Foi erguida no início dos anos 1800, em louvor a Nossa Senhora da Vitória, padroeira da cidade.

Interior da 1ª matriz – Foto: autor desconhecido http://bit.ly/O0pivb

Primeiro templo da  Igreja Batista – Foto: autor desconhecido. Google:http://bit.ly/QF43xl

Mas em 1900, um boiadeiro por nome Tertuliano, por acaso meu trisavô, eu soube disso recentemente, foi convertido por um pastor protestante em uma de suas viagens e, ao retornar, criou a igreja na sua fazenda.  A igreja cresceu, foi transferida para a cidade e resolveu encarar e falar de igual para igual com os católicos.

De 1920 a 1928, os crentes levantaram este templo da foto,  maior do que a igrejinha católica, demolida em 1930. Durante dois anos o templo compôs o cenário da Rua Grande com a primeira igreja católica. Mas entre 1930 e 1932 reinou sozinho no centro da cidade.

A construção não foi pacífica. veja relato:

” (…) Dentro da igreja os crentes eram apedrejados. Numa dessas ocorrências a esposa do pastor foi atingida por uma pedra, resultando no local da pedrada um tumor que lhe causou a morte mais tarde. Os inimigos formavam grupos que saíam à meia-noite com latas de piche e pincel, fazendo cruzes nas portas das casas dos crentes. Pichavam a cruz maior na porta da casa do pastor. Os grupos se armavam com armas de repetição para atacar os crentes na igreja (…) O padre recomendava aos seus adeptos a queimarem toda literatura evangélica que recebessem dos protestantes hereges. Assim foram queimados folhetos e bíblias em abundância. (…) Na década dos anos 20, a igreja começou a construir o seu 3º templo, na Praça 2 de Julho, hoje, Caixeiro Viajante, local do templo atual. O vigário da Freguesia tentou embargar os trabalhos da construção, conforme nota publicada no jornal “A Notícia”, 28 de agosto de 1921. (…) O jornal “A Notícia”, de 24 de outubro de 1928, publicou uma nota parabenizando os batistas pela inauguração do belo templo, e termina dizendo: “Não nos é possível conter a nossa censura aos católicos de Conquista, que deixam a igreja matriz prestes a cair, enquanto os de religião oposta edificam um belo templo, tendo gastado, até agora, 45 contos de réis”.  Por Genor Calixto Moreira. Veja íntegra:http://www.pibbvc.com.br/sobre-a-igreja/historia.html

Catedral católica, teve construção inciada em 1932, foi inaugurada em 1938 e concluída em 1944. http://tabernadahistoriavc.com.br/page/16/

Católicos diante do seu novo templo. Data aproximada 1938.

foto: autor desconhecido http://bit.ly/SKwYUk

Construção do templo da Primeira Igreja Batista, restabelece a aparente igualdade no tamanho dos dois templos cristãos da cidade. Lá no alto, a igreja católica.Foto: autor desconhecido http://bit.ly/PpkP0r


Templo protestante hoje. Foto: http://goo.gl/maps/0neK6


Catedral hoje: Foto: http://goo.gl/maps/K3e02 

Página de fotos antigas de Conquista no facebook: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.276643322441022.52326.276638065774881&type=3

 

E a peleja dos tempos… só sobraram fotografias.

Este sobrado nasceu em 1906 e  morreu em 1973. Teve uma existência mais curta do que a de uma vida humana. E levou 16 anos para ser concluído. Além de residência, foi também sede de jornal, de rádio, de centro espírita e de hotel. Tinha paredes de 1 metro de espessura, foi construído para durar muito.
Conquista é assim, não deixa pedra sobre pedra para contar a história. Foi assim com a primeira igreja matriz, demolida em 1930 para dar lugar à catedral atual, foi assim com os vizinhos Rua Grande acima, foi assim com praticamente todo o casario original da cidade, foi assim com prédios até mais recentes, como a sede do Banco Econômico, que virou um caixote colorido com uma imensa coroa da loja  Insinuante, foi assim com o Colégio Barão de Macaúbas, foi assim com as residências da década de 1960. Enfim, sobraram as fotografias.

O sobrado acima deu origem a este caixote do Banco do Brasil, em 1973, época em que a cidade era irrigada com o dinheiro do financiamento do café. Os ricos e os novos ricos se mudaram em direção ao lado leste da cidade. O núcleo original passou a ser usado mais como comércio e as antigas construções quando não são destruídas têm as fachadas cobertas com placas.

 

 

Outros tempos

24/08/2012

Vivo melhor em outros tempos. Gosto de percorrer imagens de outros tempos. Por acaso acho uma imagem de outros tempos na internet, e viajo. Acho depois outra, outra… e sigo tempo afora.

Resolvi então montar aqui um álbum de figurinhas, com pedaços da história de Vitória da Conquista, cidade  de nome redundante onde nasci, onde um grupo de forasteiros venceu e conquistou o território indígena a ferro e fogo.

E construiu seu casario na mesma direção do Rio Verruga, norte Sul, Bahia -Minas.

Neste blog encontrei reunidas a maioria das imagens antigas de conquista disponíveis na busca pelo google:  http://catadodeideias.blogspot.com.br/ Mas são poucas as informações, faltam datas, fotógrafo, mais referências.

Neste aqui há mais referências, mais informações: http://tabernadahistoriavc.com.br/category/conquista/

Rua Grande II – clique na foto para ampliar.

A mesma praça da foto anterior, vista  do plano, de cima pra baixo, com as mesmas três árvores, uma delas uma espécie de pinheiro, semelhante a uma araucária.  (Foto).

Rua Grande III

Olha aqui o pinheiro em detalhe e outra criança na imagem.

Foto: http://tabernadahistoriavc.com.br/antigos-matadouros-de-conquista/#

Rua Grande – IV

No detalhe um homem e três crianças.

Foto: http://tabernadahistoriavc.com.br/wp-content/uploads/2012/02/PTN-PB0030-Rua-Grande-d%C3%A9cada-de-1930.jpg

Praça na década de 1940  http://tabernadahistoriavc.blogspot.com.br/2010/11/acervo-fotografico-3.html

Rua Grande V – A feira. Registro fotográfico mais antigo, de 1911

Sobre esta foto e a feira:

http://tabernadahistoriavc.com.br/a-primeira-feira-livre-de-conquista-foi-a-da-rua-grande/

Feiras – Da Rua Grande para a Avenida Lauro de Freitas e Praça da Bandieira

http://blogdopaulonunes.com/noticias_especificas2008a/20080308_noticia_08.htm

Cemitério de Conquista

23/01/2012

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Gosto de cemitérios. Desde a adolescência visito este de Conquista, sempre quando vou à cidade. Desta vez encontrei terra arrasada. Não deixaram bronze sobre lápide. Mensagens de família, nome de mortos, datas, não sobrou nada em metal. Mal cuidado, sujo, entulho por todo canto. Com o abandono, a prefeitura enterra um pouco da história da cidade.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2581280088045&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Duas lembranças de Maria Sampaio

08/09/2010


Uma, nesta foto  de sua autoria, no convite para a exposição no Solar Paraíso sobre Dona Canô, que completa 103  anos no dia 16.

E duas, nesta matéria-prima para um conto photográphico, flagrante de uma formatura num curso de Datilografia em Vitória da Conquista (Blog do Anderson).

Coração

22/08/2010

Início do século XIX. Amanhece no sertão da Bahia e uma mulher tece. A filha leva para ela o café preto e quente da manhã. Não precisava mais. Silenciosamente havia parado de tecer e a cabeça repousava sobre o tear.

Décadas depois, Clementina, uma das suas filhas, já havia levantado e trocado de roupa na casa de Bernardo José, próximo a Itaquaraí. Mas permanecia no quarto. Auta, uma das filhas de Clementina  veio saber o motivo do silêncio. Encontrou o urinol ainda quente.

1962, Vitória da Conquista.  Auta vê Senhorinha uma de suas noras chorando com o filha a filha recém-nascida morta nos braços. Vai  ao quarto de Maria, uma de suas filhas,  com quem morava,  buscar um medicamento e não retorna. Também se fora silenciosamente.

Tio de Assis perdeu naquele dia mãe e filha. E eu, aos 10 meses de idade, a avó que não conheci.

Eu não sou cachorro não – playlist

07/08/2010

Finalmente peguei pra ler “Eu não sou cachorro não”, do meu conterrâneo, contemporâneo e do mesmo signo de peixes, Paulo César Araújo. É uma pena não o ter conhecido. Vivemos na mesma Vitória da Conquista, crianças, na década de 60. Ouvimos as mesmas  rádios Clube e Regional.

Soube do livro quando foi lançado,  em 2002 e ganhei no meu aniversário do ano passado.

Araújo  dedica seu livro a três persongens da cidade conhecidos de todos que viveram aquela época: a louca Lilita, que vivia enrolada em panos, uma espécie de mulher de roxo sertaneja, a Cafezinho, um louco manso e mendigo, que vivia com uma caneca a pedir café e ao poeta Alberto Davi com seu visual Jesus Criso.. Pra ficar completo, poderia incluir também Cabeção, um mendigo que repetia o mantra “Daaaá uma esmola pelo amor de Deus” com uma caneca de aluminio batendo no chão da Alameda Ramiro Santos.

O livro lança luz sobre  a produção da música rotulada como brega produzida nos dez anos de vigência do AI – 5, de 1968 a 1978, desprezada pela Intelligentsia mas presente na memória afetiva de praticamente todos os brasileiros, eu e ele incluídos.

Colcocaria Roberto nesta lista brega, mas parece que Paulo já planejava fazer um livro exclusivo para o Rei, infelizmente lançado à fogueira, felizmente vivo e multiplicado por e-mail na internet.

Enquanto vou lendo, vou fazendo aqui meu playlist do livro:

Waldcik Soriano –  Paixão de um homem , Carta de amor , Tortura de amor
Odair José – Cadê você , Deixe essa vergonha de lado , Eu vou tirar você deste lugar
Fernando Mendes – A desconhecida , Você não me ensinou a te esquecer , Cadeira de rodas
Paulo Sérgio – A última canção , No dia em que parti , Não Creio em mais nada
Diana – Por que brigamos? , Canção dos namorados
Euvaldo Braga – A cruz que carrego , Sorria, sorria
Agnaldo Timóteo – Os verdes campos da minha terra
Nelson Ned – Tudo passará
Altemar Dutra – Sentimental demais
Benito di Paula – Meu amigo Charles Borown, Do jeito a vida quer e Acaba a valentia de um homem

A salvação está na imagem

14/01/2010


Fachada da casa onde nasceu Glauber Rocha, uma das poucas preservadas na Rua 2 de Julho, em Conquista.

Acompanhei de longe a discussão sobre o simbolismo do ano novo. Junto com Natal, São João e Carnaval, o réveillon forma o quarteto das festas absolutas, envolvem quem quer e quem não quer participar e geram a tal pergunta: e aí, vai passar onde?


Simpatia na mesa.

Os anos vão passando e confesso que passo a cada dia mais indiferente.
Mas o ano novo tem  um simbolismo forte porque é conclusão de um ciclo, de uma volta completa em torno do sol. É como se fosse o aniversário de todo o mundo.


Balança espelho, espelho meu.

Passei em Iaçu com mesa farta e muita simpatia comandada por Reia, a irmã de Soraya. Romã,  lentilha, arroz e dinheiro nos sapatos, numa de noite de muitos fogos. Sim, Iaçu tem também show pirotécnico, de 15 minutos ou mais.
E a trilha sonora de carros de som na rua: “Me dá a patinha…”
O ano novo me revelou também  na feira livre da cidade, numa balança reflexo de um  equilíbrio precário.
Tudo pendente pra algum lado: peso, orçamento, saúde, atenção aos meninos  etc etc etc e tal.

O pequeno Hotel Lisboa era o imenso Hotel Lancaster

Peguei então André e fomos juntos, de ônibus, passar três dias em Conquista, para a casa onde me mudei quando estava na idade dele. Deste janelão da esquina observava nas madrugadas de sábado o burburinho da feira se formando, na Praça da Bandeira. O hoje Hotel Lisboa era então o Hotel Lancaster, e esta escadaria, então de marmorite, muito maior. Hoje tudo é pequeno, os corredores apertados, mas nos meus oito anos eram uma imensidão.

Túnel do tempo

Saía todo dia pela manhã bem cedo para fotografar. Descia a escada túnel do tempo, onde eu me sentava e ouvia de um primo mais velho a profecia aterrorizante: laaaaá no ano 2000, quando eu teria inimagináveis 39 anos, o mundo iria se acabar em fogo.

A nova previsão, 2012,  me permite chegar a  inimagináveis 51.

Jardim das Borboletas, agora Praça Tancredo Neves

Revi a praça caminho da escola,  cujo viveiro de pássaros foi substituído por um lago com patos. Sobraram apenas as palmeiras imperiais mais altas ainda.


Uma das poucas residências  das décadas de 50/60 ainda livre da demolição e das placas.

Conquista é uma cidade escondida sob as placas.

Não há como conter as alterações do cenário. Por isso, a única salvação, a possibilidade do registro da mudança  está na imagem.

E ao refazer o caminho para a escola, fui garimpando registros, numa pescaria arquelógica que me remeteu àquelas manhãs de 1968/69.

Do antigo mercado só restou o telhado e as escadarias. Onde havia a feira, um cacete armado permanente. E a tradicional  galinhota evoluiu, ganhou até adesivo fosforescente de segurança.

Fachada da década de 60 ganha as inevitáveis grades.

Uma das casas mais antigas da 9 de novembro, que me levava à Escola Anexa ao Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED) e que hoje ostenta muros e grades inexistentes na época.

Hoje o IEED tenta recuperar o orgulho de uns dos mais tradicionais colégios públicos da cidade ao exibir  nos muros os nomes dos seus 33 alunos que passaram nos vestibulares em 2009.

A partir de agora, um mix dos passeios fotográficos, começando pela (re)criação de Michelangelo, numa vesão fast food.

Ao voltar ao mercado, encontrei o escorredor de copos no modelo do retratado por Maria.

Na loja de produtos religiosos, uma imagem que conheci há uns três meses  num mercado de Feira de Santana. É Ogum Xeroquê, entidade da Umbanda que retrata os dois lados dos conflitos humanos e religiosos. Olho para este rosto e lembro do símbolo Yin e Yang dos orientais.

Na feira de Conquista, a balança vazia continua a me lembrar do meu precário equilíbrio.

Na volta, mais um escorredor, no bar do entroncamento da BA 046 com a BR 116, que leva a Amargosa ou a Iaçu.

E sobre o bar, a vida continua…

Ainda em Conquista reproduzi uma das muitas fotos que minha mãe mantém nas paredes do seu pequeno apartamento construído numa entrada lateral do hotel. Ela e meu pai. Ao recortar a foto para colocar aqui, vi os controles da TV e vídeo.

Nestes dias de Conquista e agora novamente Iaçu, constato o quanto a televisão ainda é presente. Ela faz parte do cotidiano de minha mãe, que vive sozinha, e de seu Rubem, avô de Soraya, que vive hoje apenas com uma das netas, na casa que já abrigou uma pequena multidão.

Hoje veremos mais um BBB em família.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3415628106224&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Silêncio!

18/09/2009

Hospital Santa Izabel 01

Minha primeira lembrança  de  hospital é a imagem de uma moça branca, com quepe branco,  dedo indicador nos lábios e a palavra silêncio em letras vermelhas num cartaz colado em quase todas as paredes.

Lembro do cheiro forte de éter,  de minha mãe deitada na cama do Hospital São Geraldo, em Conquista, convalescente de um aborto espontâneo. Lembro disso hoje, mais de quarenta anos depois, aqui  ao lado dela, deitada, convalescente de um exame simples, mas que aos 79 e artérias comprometidas exige internamento mais demorado.  

Nasci no São Vicente, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, pelas mãos de irmãs parteiras. Agora estamos no Santa Izabel, também Santa Casa de Misericórdia, e ela me conta que cheguei ao hospital já coroando. Nasci cinco minutos depois, sempre apressado. Este papo a gente teve às cinco da manhã.

Nada como necessidades médicas para tirar a gente da correria pra não sei onde e nos devolver a prosa sem pressa da madrugada de um hospital.
Sua companhia oficial é uma de minhas irmãs, a caçula mulher dos seis filhos. Estou aqui de turista, na segunda noite de acompanhante. Na primeira, dormi como uma pedra e nem ouvi as gozações da enfermeira a perguntar a ela quem acompanhava quem.

Hospital Santa Izabel 02

Mas esta noite, um Tupolev disfarçado de ar condicionado nas minhas costas, com pontuais decolagens e pousos forçados a cada 20 minutos, não me deixa dormir. Então rascunhei este post e botei a conversa familiar em dia. Minha mãe está na ala mais feia do hospital, num apartamento do segundo andar de um puxadinho, construído ao lado do prédio do século XIX, cercado por gradis forjados em Valença. Minhas andanças pelos hospitais de Salvador indicam que a tendência arquitetônica adotada pela maioria é o estilo puxadinho-caixote-asfixiante.

Na ala mais antiga e mais bela do hospital, estão as enfermarias, que conheci a caminho do refeitório. Seus corredores de pé direito alto, suas portas em arco, me lembraram um hospital para onde fomos levados os estudantes estrangeiros, recém-chegados a Moscou, também num setembro, em 1983, para os exames médicos. Eu, que havia sido deslocado pra longe, tive a sensação de ter sido levado a outra viagem, desta vez no tempo. Voltei no tempo também ao percorrer  os corredores do Santa Izabel.

Não gosto de hospital, ninguém gosta, mas prefiro os mais amplos, mais abertos. O único em que se respira nesta cidade é o Sarah, pensado para aproveitar a brisa, pensado para acolher e não encaixotar. De resto, o que impera é a arquitetura do caixote e do puxadinho. Será que um dia a arquitetura do Sarah vai chegar aos demais hospitais?

Hospital Santa Izabel 03

As placas, os carros e o edifício Aliança

30/10/2008

O blog do  Anderson  trouxe a Vitória da Conquista da minha infância nesta imagem. Morava um pouco antes desta praça da foto, na Praça da Bandeira. Esta era a rota de ida para a escola, rota das placas que ensinavam a ler: Os Gonçalves, Farmácia Lia, Confeitaria Aracy, Magazine Aracy, Chez Nice Modas (o chez soava estranho), Bazar Cairo.

Os carros também são os carros da infância. Numa Rural parecida com esta viajei com tio Descartes para Minas Gerais aos cinco anos. Com um DKV semelhante a este, meu cunhado Mimi foi ao  hospital buscar Dine, o terceiro irmão.  Num caminhão como este  ia e voltava para a roça de tio De Assis, na estrada para Anagé,  e num Jippe como o que está na porta da Farmácia Lia também ia para Minas e passeava pela cidade com meu primo e ídolo Inamar, que namorava Elaine, que dirigia também um Jippe.

No alto à direita subia o maior prédio da cidade, o Hotel Aliança (clique na imagem para vê-la inteira). A foto deve ter sido tirada em  meados da década de 60, por volta de 2 da tarde, num dia de Verão, revelam os  modelos dos carros, a posição das sombras  e a ausência de agasalhos. 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2511614586451&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

1965/1966 – Pai no espelho

27/03/2007

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste,
Que eu garrei a maginá
Maringá, Maringá
Para havê felicidade.
É preciso que a saudade
Vá batê noutro lugá

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um cabloco assosegá.

Minha memória mais antiga é de uns quatro ou cinco anos. E vem do hotel Maringá, na quase esquina da travessa santa Rita, esquina com a Praça da Bandeira, prosseguimento da Rua Laudicéia Gusmão, em Vitória da Conquista.
Meu pai no espelho, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, faz a barba. E canta… Maringá, Maringá… E eu com a idade de meu André hoje, subo numa mesa ao lado, me coloco entre ele e o espelho e mostro as marcas de cinto nas costas. Havia apanhado da minha mãe, içado pelas pernas no banheiro e apanhado muito. Conto a surra e os motivos adiante.
Nasci em 9 de março de 1961, no hospital São Vicente. Pra continuar estas memórias preciso apresentar os outros personagens. Começo por pai e mãe, no Licuri em Família…